Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 820 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 14 viagens para as transportar.

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Eles

Fui para a Ilha Grande acampar. Praia belíssima, uma das mais famosas, Lopes Mendes. Extensa faixa de areia branquinha e vazia. Mas como era temporada, nem tão vazia. Na época não tinha vendedores na praia. Estávamos eu, meu esposo, minha filha mais velha e um amigo, bebericando, jogando um frescobol, tomando uns tchibum naquela água geladérrima, ou seja, deliciosamente fazendo nada. Uma família que estava próxima pediu as raquetes e a bola emprestada e começaram a jogar. Lá pelo final da tarde, ouvi o menino, filho do cara, de uns 7 anos perguntando: – Mas pai, quem vai limpar? E o pai disse: – Ah Filho….. eles limpam.

E foram embora. Quando olhamos para trás, na areia, algumas sacolas e copos plásticos, pet e uma embalagem de isopor e alguns restos de comida. Não era pouco lixo, não. E estava totalmente espalhado.

Todos nós começamos a zoar. – Quem são eles? Alienígenas que vem do espaço deixar esta praia limpinha? Os garis, que, dificilmente passam nas praias mais movimentadas? Ou nós, zé ruelas, já que havíamos emprestado as raquetes, poderíamos carregar o lixo por uma questão de bom-senso?

Pois então, tivemos muita raiva e falamos a tarde inteira sobre o assunto. E acabou ficando a cargo da natureza, para decompor em 500 anos ou mais o lixo dEles. Ou de alguma ave ou tartaruguinha incauta que ainda não tenha aprendido a diferenciar uma deliciosa alga marinha de uma sacolinha de supermercado.

Mas qual o que, vergonha alheia é carma planetário. Espalha pelo ar. Pelo menos para mim sobrou um peso, de não ter feito o que deveria, apesar de já ter sido algumas vezes porca (sabe como é, bitucas no asfalto, melhor que fedendo no bolso da calça). E aquela sensação que eu poderia ter feito a diferença para a sobrevivência de uma tartaruga marítima enorme, ou pequena que fosse. E claro, julgar o que o outro faz errado, até pode trazer benefícios, se nós mesmos agirmos de forma diferente. E não foi desta vez.

Redescobrindo o amor em passar roupas

Na copa meu marido não existia para mim, ou para nada. Ficou completamente absorto. Não existia nenhuma atividade que ele podia fazer, e parecia que nem queria ninguém perto para atrapalhar sua diversão. Eu, no terceiro jogo da copa, fui passar roupa, vingança total, ele teve que obrigatoriamente tomar conta de dois bebes que não param de chamar a atenção. Sou muito má.

E nesta atividade caseira que só perde em grau de maledita para limpar a casa (que é passar roupa), pensava quantas e quantas vezes briguei por causa dos domingos. Ou melhor, dos jogos de futebol de domingo, porque, em vez do maridão dar atenção a esposa carente e sedenta de amor, dá-lhe breja com TV. Todos os jogos, dos times de várzea aos europeus. Meu, fala sério. E foram inúmeras brigas mesmo, tipo uns 5 anos. Porque ele gosta de jogo e eu de atenção. Até que um dia parei, parei de exigir, parei de lutar, apenas aceitei. Ele tem defeitos, eu tenho defeito. Simples assim. Ele é obrigado a escutar eu falar sobre religião, esoterismo, reiki, contatos alienígenas viajados, viagem astral, e mais um rol de assuntos que ele está cagando um kilo.

E mesmo que eu ainda não goste de futebol e prefira vomitar do que assistir (eu odeio vomitar, prefiro ficar passando mal por horas), eu casei com ele não é mesmo? E o aceito exatamente do jeitinho que ele é (e penso que só por isso ele parou de assistir todos os jogos, só assiste os do São Paulo, que é seu time de coração). E este seria o fim da história, porém, nossa história não chegou a um fim, ainda, porque EU ACEITO MEU ESPOSO EXATAMENTE DO JEITO QUE ELE É, e ele a mim.  L’AMOUR…. em futebol, em religião, em nós, até em passar roupas (só que não)!

Que eu desorganizando possa me organizar

Era uma bela tarde ensolarada e fui a uma dinâmica de emprego. Sou péssima em dinâmicas. Já estava com aquele pensamento loser total, ainda mais porque era na minha área de formação, no cargo que queria. Mas por um mistério desses insondáveis eu fui ótima. Muito bem mesmo. Tive a impressão que os concorrentes também sacaram, arrebentei. No final da dinâmica todos saíram e fui procurar uma bala na bolsa. Acabei ficando sozinha com a RH e ofereci uma bala para ela, pois estava super contente. Ela aceitou. Mano, revirei a merda da bolsa de cabo a rabo, acho que tirei aquelas coisas inúteis que a gente guarda não se sabe porque, e ela já falando não precisa e eu insisti, pois bem, acho que ela se assustou, não sei se com o que tirei, ou com o quanto tirei, ou se com o caos total daquela bolsica minúscula. Até eu fiquei admirada. Imagino que até Mandrake ficaria. Achei a bala, mas olhando a moça nos olhos, meu contentamento se esvaiu. Óbvio que não me chamaram. Óbvio que minha bolsa continua desorganizada. E eu penso, seriamente, em fazer um curso de organização, quem sabe uma pós… Mas, enquanto isso, ficaria muito feliz de alguém, qualquer um, me ajudar a arrumar o meu armário que está uma zona.

Na ponta do lápis

Abro a bolsa, afasto os maços de cigarro vazios, na tentariva de encontrar o pedaço de papel. Recomeçar é a palavra de ordem. Recomeçar a vida, reorganizar prioridades, me desfazer do supérfluo…é o que sempre me vêm a mente em dia de entrevista de emprego, ou quando tento encontrar alguma coisa na confusão da minha bolsa.
O motorista anuncia o ponto final. E, finalmente encontro ali, no último bolso, rabiscado à lápis de olho, o endereço, a vaga e o horário: 10h. Olho para o celular: 9:20h. Sinto orgulho de mim mesma por saber que a pontalidade ainda é um forte.
Bom, a rua é essa. Bato o olho ao redor, e é como eu tinha imaginado em meu pré-trajeto mental…Avisto o prédio, o único do local. Não pode ser outro. Mas algo aqui não bate. Número 35. Resgato o papel mais uma vez, dessa vez, estrategicamente dobrado no meu bolso: 38. Claro, eu devo ter anotado errado…é a única explicação.
– Bom dia – cumprimenta mecanicamente a mocinha da recepção, com seus cabelos impecavelmente lambidos ao redor do crânio ovalado.
– Olá. Tenho uma entrevista.
– Empresa?
Poooutz.
– Segundo andar.
– Ah sim. Olha pra câmera.
Aquela tensão momentanea de se sentir espionada pela CIA ao tirar uma foto 3×4, que só deva acontecer uma vez na vida.
Um rapaz simpático segura a porta, apesar da minha tentativa em fingir que ainda ia acertar o crachá. Não escapo. Subo com companhia e perco a chance de dar mais uma espiadela no curriculum.
Sala 25. Mais uma mocinha. Dessa vez, sem os cabelos lambidos, mas com a mesma cara de segunda de manhã.
– Pois não?
– Olá. Tenho uma entrevista.
– Você está atrasada.
– Nossa, mas cheguei meia hora antes.
– A entrevista era às 9h.
Tento me fazer segura. Afinal, dados anotados à lápis de olho podem não ser tão confiáveis.
– Tenho certeza de que me disseram 10h.
Ela bufa.
– Vou ver se eles autorizam a sua entrada. Anota o seu nome aqui, por gentileza.
Olho ao redor para analisar o ambiente. Construtora. Interessante. Me arrependo por um segundo de não ter pesquisado mais sobre a empresa.
– Senhora. Pode entrar.
Entro em meio a uma explicação sobre um novo condomínio ecológico. Quinze olhares me seguem. Faço uma rápida apresentação e mergulho no mundo dos coletores individuais de óleo por apartamento.
A dinâmica segue sem percalços. Sinto que trabalhei bem em equipe, sou elogiada, capricho na redação e sou aplaudida na simulação de venda de apartamento. Espera. Venda de apartamento?
A mocinha da recepção me chama novamente.
– Senhora. Seu nome não consta na lista.
– Tem certeza?
Munida do meu rascunho, questiono:
– Olha. Falei com a fulana. Analista de Marketing, 10h…
– Analista de Marketing? Essa entevista é para Corretores de Imóveis…

Aniversário (18/06/2014)

“Um ano a mais é uma ilusão a menos”…sempre ouvi falar isso e hoje fico a me questionar:  “Será que eu, já tendo vivido tantos anos, por tantos caminhos diferentes, tenho menos ilusões hoje que há alguns anos atrás?”

– Pois sim! Gostaria de não ter esse coração vagabundo que acolhe todos os sonhos, sempre pronto a divagar pelas escalas da emoção, abraça todas as possibilidades e acrescenta um mundo de expectativas.
– Apague as velas, vamos cantar o parabéns a você (e o bolo iluminado com mais velas do que por certo caberiam) parecia querer se abaixar, ao receber a ventania que iria vir.

E eu, inspiro e: assopro! Então faíscas sobem, vão se apagando, todos cantam… e eu fico ali, olhando, admirada, pensando que todos me vêem já com um olhar de saudade…e não sabem, sequer imaginam os galopes do meu coração, num turbilhão de pensamentos, me jogando para todos os lados, emoções de formas e sentidos diferentes, que já penso em como irei relatar.

Como ainda bate forte em meu peito, a vida, o prazer infinito de estremecer de sensações, de puro êxtase!

– Saibam vocês, só morre, quem não sonha!!!!

Eu vou continuar sonhando com a lua, o céu, as estrelas e a beleza profunda de todo ser humano. Vou sonhar e viver o amor!

– Feliz 73 anos, Clarice!

Outono

Os tons de marrons das folhas secas que como um tapete enfeitam os caminhos me fazem ficar nostálgica e com a sensibilidade desperta e à flor da pele. Os dias claros e magníficos do outono me fazem refletir no meu passado, que os meus cabelos brancos me trazem como lembranças melancólicas e um pouco embaralhadas.

Sempre fui muito otimista, feliz mesmo, mas as recordações são pontilhadas de saudades, uma vontade muito grande de tornar a viver as emoções perdidas no passado tão distante. Vivi muitas vidas, fiz muitas coisas boas e más também, porém procurei sempre ser fiel às minhas raízes, às minhas crenças e origem.

Já tive, como a natureza tem todos os anos, o meu outono da vida e até ele já passou deixando em tudo o perfume da saudade que ficou. Agora, no inverno da minha existência, sabendo que o que falta para ser trilhado é muito pouco, me recordo das folhas de outono, soltas ao vento, quando eu pensava que entendia tudo…

Portanto, só me resta admirar as belezas que a natureza nos presenteia gratuitamente, apenas recebendo como recompensa, as nossas emoções…

Clarice

Pérolas do Baú

Pés ligeiros, correndo sobre a terra vermelha e quente do sol a pino. Corpo miúdo, franzino mesmo, mas com uma vontade enorme de alçar vôo assim que fosse possível. Mas eu não entendia aquela ânsia por liberdade, por conquistar espaços, poder fugir daquela pasmaceira que eu não conseguia explicar.

Sem modernismos, sem qualquer progresso, o marasmo daquela cidadezinha do interior me sufocava. Eu sonhava com outros lugares, mas nem sabia com quais e nem onde ficavam.
O calor, a terra vermelha e solta, o braço carregado de cores fortes de papel crepom as coroas brilhavam enquanto uma ou outra era admirada e até escolhida.

Eu me sentia mensageira da paz e da alegria e disputava meu lugar na sombra de uma árvore pequena, na porta do cemitério da cidade. Eu, no alto dos meus 10 anos de idade, ia sempre vender coroas coloridas que minha mãe fazia com muito capricho e criatividade para complementar a renda da família.

Assim eu ia, sonhando em ser alguém de sucesso, bem resolvida e poder estudar muito. Logo aos 12 anos, viemos para o Vale do Paraíba, onde pude realizar meus sonhos. Tropecei, caí, me levantei, fui e sou feliz e acabo de dar umas pinceladas em algumas anotações do meu baú da vida, com algumas lembranças que eu não quero esquecer.

Clarice

Meus Sapatos

Infância dura, adolescência sofrida, mas muito amor, muita música, poesia, livros. Naquela época o ensino fundamental chamava-se ginásio e eu me destacava apenas por ser aluna estudiosa, dedicada e nada mais. Tínhamos um coral, na época dizia-se orfeão e adorávamos cantar com a regência da professora de música. E ela nos ensinava a reger certas passagens musicais às quais os alunos cantavam e se divertiam nas festas escolares.

Certa ocasião fui escalada para reger uma das músicas e para coroar a ocasião, minha mãe pegou minha surrada saia azul-marinho, do uniforme, virou do lado do avesso, costurou as pregas e lá estava eu, toda feliz, de saia renovada, achando que ninguém iria perceber os velhos sapatos que eu engraxara e lustrara com afinco, mas que estavam gastos só de um lado, dando um aspecto bem feio e desleixado.

Mas as fotos, que ainda tenho até hoje, mostram uma imagem meio desengonçada, gorducha, séria e compenetrada, com os sapatos tortos, gastos, com a meia-sola já no fim da vida, enquanto manejo a batuta com orgulho, olhos brilhantes e rezando baixinho para que ninguém olhasse para meus pés…

Clarice

A cigarra morre no fim, mas, pelo menos, viveu

Eu não estava me lembrando de um fato relevante que tenha acontecido no outono. Segundo a acupuntura no outono os cabelos caem. Obviamente que é uma época para deixar ir tudo que não nos faz bem, muito embora hoje em dia nosso relógio biológico não acompanhe o relógio universal. Nós caímos na gandaia a noite, dormimos de dia, fugimos do frio, da dor, do escuro e escondemos de nós mesmos esta nossa escuridão que nos assusta.

 

Mas hoje pensando no que afinal o outono fez por mim, ou em mim, me lembrei que tive meu ultimo filho no outono. Sem dores de parto, porque não poderia fazer um parto normal já que a minha penúltima cesárea tinha sido há um ano, mas com aqueles medos psicológicos que só uma grávida pode entender, tipo bebe de Rosemere ou que o bebe não consiga sair a tempo, que não dê para chegar ao hospital, que eu morreria das complicações na cesárea ou até mesmo do parto normal (já que não deu tempo de chegar, não é verdade); ah e o tarô que eu jogava tipo umas 5 vezes por dia, com as mesmas questões e que não entendia bulhufas, pois, afinal, o desespero nos deixa tapados. Bom, lista longa. E tirando as pirações ocorreu tudo muito bem, afinal o que é para ser será, neste caso foi. E lá estava meu taurino japa, fofo e risonho, o menino que tanto aguardei, que veio na raspa do tacho, que agora fechou suas porteiras MESMO.

 

E acho que a estação que nascemos nos brinda com alguns dons. É a introjeção da natureza em nossas características únicas, traduzidas nos signos solares. Taurinos comem muito, algo muito bom de se fazer no friozim. E são dorminhocos (idem).  Geralmente guardam dinheiro – assim como os animais que estocam para o inverno. São persistentes por seu elemento terra, e bonitos, tal qual aquelas folhinhas vermelhas, laranjas e amarelas que forram o chão nesta época. Tem uma bela voz, e nesse ponto me lembrei da cigarra que canta e morre no inverno, portanto, não poderiam deixar de ser preguiçosos, indolentes. Mas, a verdade que não quer calar é que a formiga só trabalha porque não sabe cantar….

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